
Sabe aquele feijão com arroz básico que todo mundo sabe fazer? É exatamente isso que entregaram aqui. O filme sobre o maior ídolo pop da história é morno, “padrão Wikipédia” e tem a profundidade de uma piscina infantil. Mas ó, não me entendam mal: não é um filme ruim, longe disso. Ele entrega exatamente o que se esperava: uma homenagem visualmente impecável que vai agradar — e muito — o público que vai ao cinema em busca de um blockbuster de respeito.
Visualmente, o filme é um deslumbramento. O Jaafar Jackson não está apenas interpretando; ele canalizou a essência física do tio. A precisão dos movimentos, a voz etérea e aquele olhar vago são magnéticos.

Ver as recriações de Thriller e Billie Jean com o som do cinema no talo é uma experiência de arrepiar, daquelas que justificam o ingresso só pelo impacto técnico. Do outro lado, temos o contraponto dramático: Colman Domingo entrega a atuação mais pesada e “mofada” do filme como Joe Jackson. Ele constrói um pai monstro, desagradável e frágil ao mesmo tempo, criando uma tensão que Jaafar, com sua interpretação mais leve, não tenta alcançar.
O grande problema, porém, é o ritmo. O roteiro de John Logan parece estar em um trem-bala, correndo pelos anos 70 e 80 como se tivesse pressa de ticar itens de uma lista. Nessa acelerada, tanta coisa importante da trajetória dele ficou pra trás ou foi apenas pincelada. Momentos que definiram quem Michael era — as lutas criativas, as pressões da fama precoce e as nuances de sua personalidade — acabam perdidos em transições rápidas. O filme até tenta mostrar a “Neverland” onde ele vivia, um adulto preso em um quarto cheio de brinquedos com o macaco Bubbles (um CGI meio Disney), mas falta tempo para esse mistério respirar.
É nítido que a mão da família segurou as rédeas para garantir que o resultado fosse uma “gestão de marca” limpa e eficaz. Como crítica, a gente sempre vai apontar onde faltou substância ou onde a história foi seletiva demais. Mas a real é que, tirando essa nossa parte “cri-cri” de cinéfilo que acha que é critico, o filme vai chegar em todo mundo “fácil fácil”. É impossível não se deixar levar pelas músicas e pela figura icônica do Rei do Pop. Pode faltar camadas para quem busca um drama biográfico denso, mas como homenagem e espetáculo musical, o filme cumpre a missão de ser um tributo grandioso ao homem e ao mito.


