Finalmente, chegou o dia em que posso falar sobre o filme brasileiro mais importante do
ano! Depois da experiência na Expocine, onde participei da “decupagem” e tive que segurar
o máximo o que vi, a ansiedade para a estreia estava nas alturas. E ela veio com toda a
pompa que merece! Sim, é mais um filmaço do Kleber Mendonça Filho, o nosso mestre
dos espaços! Se em O Som ao Redor era a paranoia no prédio e em Aquarius a resistência
no apartamento, aqui a coisa vai ao limite: o espaço vira uma prisão e o inimigo é o próprio
Estado.
O filme nos leva para o Recife de 1977, no crepúsculo sombrio da ditadura militar. Nós
acompanhamos Marcelo, vivido por um impecável Wagner Moura, que carrega o cansaço
do mundo nas costas. Ele não está atrás de dinheiro, e sim de documentos da mãe, a prova
física da história dela. A tese principal é clara: a briga de verdade é pela memória. O roteiro
não é linear e exige que você, espectador, seja um detetive para juntar os cacos. É um filme
denso e exigente, mas que justifica cada um dos seus quase 180 minutos te jogando na
angústia da espera.
O suspense aqui não é de perseguição; é de atmosfera. É o silêncio, o barulho do telefone
na hora errada, aquela rotina que, se quebrada, te deixa um passo fora do lugar. O Wagner
Moura está perfeito com sua atuação contida, uma melancolia sóbria que corporifica o
intelectual acuado que precisa se apagar para sobreviver.

O Recife de 77, filmado em Panavision anamórfico, não é para ser bonito, mas sim para
esmagar os personagens. A tela larga, a saturação de cores e a luz dura e estourada
expõem, transformando a arquitetura em vigilância. O design de som? Ele é o verdadeiro
vilão, com ruídos do trânsito e o chiado do rádio te colocando em estado de hipervigilância.
No coração do filme, rola uma disputa: a memória oficial, que Marcelo busca nos arquivos,
contra a memória popular, aquela que surge em boatos e lendas urbanas, como a tal “perna
cabeluda”. Quando a história oficial é silenciada, o trauma da comunidade transborda em
novos monstros. Dona Sebastiana, a síndica (Tânia Maria), é a resistência pura, o arquivo
vivo e a solidariedade que brota na surdina.
A alegoria de Tubarão é a metáfora perfeita: o predador invisível e onipresente simboliza a
ditadura e toda a estrutura de medo e corrupção. A mídia cobrindo o caso do tubarão é a
crítica de como o absurdo desvia o foco dos crimes reais e sistemáticos do regime.

No fim, O Agente Secreto consolida todas as obsessões do Kleber em um thriller político
maduro, um ensaio sobre como a arte e o registro são os únicos agentes capazes de
vencer o esquecimento. A luta de Marcelo não acaba com um grito, mas com um suspiro
melancólico: a briga contra o apagamento nunca cessa.
Se esta obra é a representação do cinema brasileiro no Oscar 2026, fica a pergunta; vamos
continuar sorrindo?


